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Igreja da Ordem 3ª do Carmo de São Paulo - Forro da Sacristia 1

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Igreja da Ordem 3ª do Carmo de São Paulo - Forro da Sacristia 1

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    A restauração desta pintura prossegue, para nós, um já longo diálogo com os artistas coloniais paulistas. Há muitos anos nos perguntávamos sobre a face que teria a arte colonial paulista, tão pouco conhecida e menos ainda divulgada. A antiga província que tão rapidamente cresceu, quase se esqueceu de tudo o que havia feito antes, de como reinterpretara o barroco vindo de Portugal, das suas criações originais, até mesmo das pessoas que aqui viveram e do que, na sua fé, elas construíram e criaram.

    Mas a profissão de restaurador tem respondido generosamente à nossa curiosidade: após conhecermos o pintor anônimo da Capela do Sítio Santo Antônio de São Roque, os entalhadores e pintores das igrejas carmelitanas de Mogi das Cruzes e dos altares barrocos e imagens dos Museus de Arte Sacra de São Paulo, Santos, São Sebastião e Iguapé, após conhecermos também quadros e imagens de várias outras igrejas, coleções e museus, ainda encontramos insuspeitadas pinturas  coloniais na igreja do Bom Jesus de Itú e nas antiqüíssimas capelas de São Miguel Paulista e de Santo Antônio, na própria cidade de São Paulo. A mensagem para nós é clara e rica: a arte está em toda a parte, no que nos sobrou dos primeiros séculos de historia. Cabe-nos vê-la e mostrá-la em toda a sua originalidade e vigor.

    Agora defrontamo-nos com a tela “Nossa Senhora com o Menino e Santa Teresa”, obra-prima do melhor pintor colonial paulista, José Patrício da Silva Manso, instalada na Sacristia da Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo de São Paulo, provecta igreja que também abriga o melhor trabalho do seu discípulo Padre Jesuíno do Monte Carmelo.  De José Patrício já havíamos restaurado o forro da capela-mór da Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária de Itú, que ele pintou entre 1771 e 1795. Aquele mergulho na sua arte já nos havia-nos mostrado que temos nas nossas igrejas um artista extraordinário, modesto como todos os mestres e, como muitos, à espera de ser redescoberto e valorizado como merece, como o IPHAN e a Ordem Terceira fazem com esta iniciativa.

    O nosso trabalho com esta obra-prima começou há anos atrás, com uma convocação do historiador Carlos Cerqueira, do IPHAN, que, apaixonado como nós pela obra de José Patrício, nos perguntava sobre os danos, a instabilidade dos materiais após mais de 200 anos, os prejuízos à sua legibilidade e as possibilidades de se resgatar a resistência material, as cores e formas. Alguns anos conversando e estudando foram na verdade úteis para amadurecer a idéia e a forma de trabalhar conjuntamente, oportunidade que finalmente veio em 2006.

    A metodologia foi, em princípio, fácil de descrever: remover a tela, aplicar-lhe uma reentelagem, emprestando ao tecido original enfraquecido e deteriorado a resistência mecânica de uma tela nova aderida por trás, e fixá-la depois a um novo painel, em substituição às velhas pranchas que a rasgaram com os seus movimentos. Seguir-se-ia o trabalho mais convencional de remover os vernizes escurecidos pela oxidação e os retoques antigos, tão bem-intencionados quanto deturpadores, substituindo-os todos por vernizes e reintegração cromática feitos com tecnologia moderna.

    Também os critérios de restauro são simples: respeitar totalmente gestos e materiais originais, adicionando apenas o imprescindível à estabilização e resgate da mensagem do artista, e o que se adicionar será sempre removível no futuro, em respeito também ao progresso técnico que haverá de prosseguir e poderá substituir tudo o que hoje temos de mais moderno.

    O desafio foi, como sempre, materializar o ideal, tornar teoria em prática. Assim, começamos por testar e otimizar o método de remoção da tela, protegendo-a com papel japonês, descolando-a das pranchas com bisturi cirúrgico e baixando-a com uma rede, para descobrirmos que fora colocada naquele local já colada num pranchado pesadíssimo, pendurado no andar superior com ganchos de ferro. Um novo pranchado foi feito com folha de madeira contra-chapada leve fixada a uma estrutura metálica, tudo agora fixado em encaixes e facilmente removível para manutenção e até exposições fora da igreja. Usando uma ponte metálica rolante para deslocar-se sobre a tela os técnicos da nossa equipe a limparam, reverteram as suas deformações, fixaram os pontos soltos da pintura, removeram as camadas de verniz antigo e escuro, os retoques que a descaracterizavam e fizeram a reentelagem. Uma segunda tela de proteção foi colada ao pranchado, a tela original aderida a ela, e chegamos ao momento mais atraente: a reintegração cromática, quando a tela, já consolidada e resistente, foi posta de pé e as falhas e perdas foram preenchidas e neutralizadas. Finalmente, restou apenas devolvê-la ao seu local de origem, junto com a moldura original também restaurada. Dentre as várias situações curiosas surgidas neste longo processo destaca-se o desconhecimento das particularidades técnicas desta ainda desconhecida pintura colonial paulista, das quais não há registro na bibliografia técnica de restauro, geralmente estrangeira, nem na experiência nacional, que só agora começa a abordá-la. 

    E finaliza-se o trabalho com o nosso enorme prazer de, além de contribuir com a preservação da obra-prima e com o conhecimento da arte antiga paulista, acrescentar algo ao conhecimento das suas técnicas executivas, desde já disponível para os estudiosos e colegas restauradores.

    Agradecemos ao IPHAN-9a.SR, à Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo de São Paulo e muito especialmente a Carlos Cerqueira pela paciência e compreensão com que acompanhou a execução desta restauração, e sobretudo pelo privilégio de ter contato tão estreito com esta extraordinária obra-de-arte.

Julio Moraes – Coordenador geral.